CW#92 - Poder Negro

Kathleen Romeu, The Underground Railroad, cinema negro, escravidão, culinária, Bernardine Evaristo.

As semanas desse ano se empilham até transbordar a bandeja com etiqueta de ‘difícil'. E essa última não foi menos trágica. Mas para além dos milhares de mortos da pandemia, dos descalabros do inominável, e das inúmeras desgraças cotidianas, assistimos mais uma vez impotentes ao extermínio da população negra e pobre pelas mãos policiais, que se protegem atrás do escudo da corporação. O assassinato de Kathleen Romeu é só mais um capítulo da chacina que levou e leva João Pedro e Ágatha e Kauê e Kauan e tantos outros nomes já se confundem, tão parecidas que são suas histórias.

Pode não parecer, mas escrevo essa newsletter para falar de cultura. Stick with me!

Os Estados Unidos chegaram à beira de uma convulsão social no ano passado, depois do amplamente noticiado caso de George Floyd. Mas os protestos e mobilização popular em torno do movimento Black Lives Matter tiveram no homicídio de Floyd apenas o fósforo jogado num mar de gasolina. As mortes de negros por policiais, como Breonna Taylor, Philando Castile, Eric Garner e muitos outros vinham se acumulando no noticiário, e o sadismo explícito de Derek Chauvin apenas disparou o grito de BASTA! na população, não só negra e mas dessa vez também branca.

Eu, que venho de um lugar de absoluto privilégio branco e nenhum lugar de fala, fico me perguntando a que ponto precisamos chegar para nos revoltarmos contra o massacre não-assinado de negros que acontece todos os dias, aqui e lá. Por que temos que beirar a barbárie, para que essas vidas perdidas nos atinjam em nossas vidas protegidas?

Passei a semana passada inteira meio me entretendo meio me torturando ao assistir a série ‘The Underground Railroad’, disponível na Amazon Prime. A empreitada do diretor Barry Jenkins (de Moonlight), e baseada no romance de Colson Whitehead, mostra a saga de uma escrava do sul estadunidense em meados do século 19 tentando fugir do cárcere por uma fictícia linha férrea construída por abolicionistas. O roteiro oscila entre o surrealismo sinistro e a realidade crua, indigesta e gráfica para resvalar no que foi a vida nos 400 anos de escravidão legal nas Américas. Para nós, seres digitais do século 21, a tarefa de absorver essa existência é bem indigesta. Aquelas gravuras de livro de história com escravos sendo chicoteados no tronco são só o começo.

Mas vale muito a pena. Assim como vale a pena acompanhar o trabalho incrível que têm feito essa nova leva de artistas negros americanos, que não só estão entrando no mercado audio-visual na voadora, como estão dominando tudo. Jenkins, Jordan Peele, Tyler Perry, Regina King, Steve McQueen, Ava Duvernay, e tantos mais colocam o negro como protagonista de qualquer lugar no mundo, não só no ‘gueto’. E mais, mostram a história do movimento negro por dentro, não maculado pelo whitewashing do mercado.

E se o século 20 trouxe uma ampla crise de auto-crítica com o Apartheid na África do Sul e o Jim Crow nos Estados Unidos, aqui no Brasil seguimos com a falácia da miscigenação, da crença de que o país está livre do racismo por ser multi-racial. A verdade é que nunca superamos o Brasil colonial escravocrata, só o resignificamos. Por isso mesmo assistir ‘The Underground Railroad’ seja tão árduo para nós.

Veja, e se quiser conversar a respeito depois, eu vou adorar!


Um dos maiores trunfos da série é juntar um elenco extraordinário, com uma maioria avassaladoramente negra, e atores que nos deixam loucos para vê-los novamente. Além da maravilhosa protagonista Thuso Mbedo, também fiquei fascinado pelo prodígio Chase Dillon, a potência do Aaron Pierre e divindade escultural de Sheila Atim.

Imperdível também é a série da Netflix ‘High on the Hog: How African American Cuisine Transformed America'. O título é auto-explicativo, e essa é sim mais uma série sobre comida (quem cansa de ver comida?). Em 4 episódios, o chef e escritor Stephen Satterfield viaja pelos Estados Unidos para desvendar a cultura por trás da culinária trazida para a América pelos negros escravizados, e de quebra ainda mostra as dores e as belezas da vida das pessoas que carregam as tradições de seus antepassados. Excepcionalmente emocionante é o primeiro episódio, quando o apresentador viajar ao Benin, na África Ocidental, para conhecer as raízes dessa culinária. Ele vai acompanhado da fantástica escritora Jessica B. Harris, autora do livro que deu nome à série.

Com mais de um ano de atraso, estou lendo ‘Garota, Mulher, Outras', romance da escritora inglesa Bernardine Evaristo, a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize britânico em 2019. Eu nem terminei ainda, mas já sei que é um dos livros mais poderosos e atuais que já li. Fala de racismo, homofobia, feminismo, imigração, tudo ao mesmo tempo, sem esteriótipos, enquanto acompanha a vida de mulheres negras na Inglaterra. Uma aula de contemporaneidade.

Segunda-feira, dia 14, o Roda-Viva entrevista a escritora nigeriana Chimananda Ngozi Adichie. Quem não sabe quem ela é, por favor vá atrás agora.

E aqui tem uma lista de filmes (quase todos nacionais) que retratam a escravidão.


Esse ano me propus a buscar mais livros escritos por mulheres, negros (ou não-brancos), LGBTQI+ e todas as interseções possíveis. Tem um universo imensurável a ser descoberto para além do padrão que estamos acostumados. Que tal entrar nessa comigo?

Para fechar, escrevo essa carta sabendo das inúmeras limitações sobre o assunto racismo. Antes de pedir desculpas pelas besteiras que posso ter falado, quero abrir o espaço para que me expliquem onde erro. Temos que conversar mais para aprender.


Dedico essa newsletter à memória de Kathleen Romeu e seu bebê. Justiça para Kathleen, e para todos os outros que estiveram nas manchetes que ela ocupa agora!